quarta-feira, 27 de maio de 2015

72- Americano, norte-americano ou estadunidense?


AMERICANO, NORTE-AMERICANO OU ESTADUNIDENSE?

A dúvida nos leva longe. As três formas têm adeptos no português contemporâneo – o que não quer dizer que se equivalham inteiramente – e sempre rendem discussões quentes.

Como toda discussão quente, esta costuma ignorar argumentos baseados na razão, como o de que escolher entre americano, norte-americano e estadunidense não é uma questão de certo e errado, mas uma decisão vocabular legítima tomada por cada falante. Decisões vocabulares sempre revelam algo sobre o sujeito, seu grau de informação, modo de encarar o mundo e, sim, posição política.

Americano é a forma mais comum e também a mais enraizada na história de nossa língua. De Machado de Assis a Caetano Veloso – “Americanos são muito estatísticos/ Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos” – existe uma tradição cultural séria a legitimar americano como termo preferencial para designar o que se refere aos Estados Unidos no português brasileiro.

Sempre houve quem se incomodasse com isso, por acreditar que essa escolha aparentemente inocente trazia embutida uma concordância com o sequestro que os conterrâneos de John Wayne fizeram de termos mágicos – América, americanos – que deveriam ser propriedade de todo o Novo Mundo. Os brasileiros também somos, assim como argentinos, venezuelanos e tobaguianos, americanos, certo? Claro que está certo.

Assim, de um impulso nacionalista ou continentalista, surgiram dois subgrupos, o que prefere norte-americano e o que opta por estadunidense. É provável que estadunidense – que já foi a terceira opção dos brasileiros e é a que contém maiores dosagens de antiamericanismo – tenha conquistado o segundo lugar durante o pesadelo dos oito anos de George W. Bush.

O problema é que o principal argumento contra o uso de americano – o de que o termo está “errado” porque quer dizer tudo o que se refere às três Américas – é ingênuo. Americano quer dizer as duas coisas. Assim como mineiro pode designar tanto um trabalhador em minas, seja ele búlgaro ou cearense, quanto um natural do estado de Minas Gerais, e o contexto resolve qualquer possível ambigüidade. Isso não é argumento. E ainda que fosse, norte-americano sofreria do mesmo problema, o de excluir canadenses e – dependendo da classificação – mexicanos de um termo que deveria incluí-los por força de geografia e história.

Quanto a estadunidense, bem, aqui a questão é política, ponto. Por que logo eles, os americanos, teriam o direito de usar como emblema, medalha azul-vermelha-e-branca no peito, a sonoridade de América? Se nós também somos América e temos até uma Iracema, isso não seria pura pilhagem cultural, muque colonialista, arrogância ianque?

É claro que se pode pensar assim, e de certa forma foi isso mesmo que ocorreu. Mas o fato cru é que, quando grande parte do mundo estava sendo redividido e rebatizado, os caras foram espertos no trabalho de branding. Correram logo ao cartório mundial com o bebê no colo e assimilaram – se não a América-coisa, que é obviamente inassimilável – pelo menos a palavra América e uma ideia de América. São os Estados Unidos da América como nós já fomos os Estados Unidos do Brasil. Ninguém nos chamava de estadunidenses na época.

Paciência, então? Isso vai de cada um. Minha paciência é menor com episódios de gato-mestrismo linguístico – “você está errado por falar como todo mundo, eu e uns poucos outros é que estamos certos” – do que com os Estados Unidos da América, sobretudo na era Obama. No fim das contas, bastaria o pernosticismo da palavra estadunidense para me indispor contra ela.

Prefiro outra posição: a de que, do ponto de vista da língua, não existe certo ou errado aqui. Assim como a mandioca também pode ser, por questões regionais, chamada de aipim ou macaxeira, os termos americano, norte-americano e estadunidense são opções vocabulares à disposição do falante de português. Mas convém saber aquilo que cada um realmente implica antes de sair brandindo argumentos furados de autoridade.

Sérgio Rodrigues in http://veja.abril.com.br/blog/sobre-palavras/consultorio/americano-norte-americano-ou-estadunidense/

domingo, 12 de abril de 2015

71 - A Nova Direita do Brasil

Tea Party à brasileira


Um debate com a nova direita

por Claudia Antunes


Da plateia, o rapaz corpulento, de camisa polo desbotada, jeans e boné, falou ao microfone. “Trabalho com tecnologia e nas horas vagas exorcizo esquerdistas. A gente vai estar enxugando gelo enquanto não fechar a fábrica de idiotas que é o sistema educacional brasileiro”, declarou, sob palmas e gritos de “É isso aí!”. O mediador aproveitou para anunciar que na semana seguinte receberia Miguel Nagib, da ONG Escola sem Partido, “um herói brasileiro”. Kim Kataguiri, um dos três convidados da noite, expressou seu “apoio completo” a Nagib. Renan Ferreira Santos, a seu lado no palco, arrematou: “Você sai do colégio sabendo o que é latifúndio, mas não quanto paga de imposto na sua lancheira.”
O debate acontecia no teatro do shopping Fashion Mall, em São Conrado, no Rio, oito dias depois do protesto de 15 de março, que levou milhares de pessoas às ruas contra o governo de Dilma Rousseff. Kataguiri, 19 anos, e Santos, 31, são fundadores do Movimento Brasil Livre, o MBL, que defende o impeachment de Dilma. Juntamente com o Vem pra Rua e o Revoltados Online, constitui a tríade que convocou a manifestação. Estavam acompanhados de Alexandre Santos, 26 anos, irmão de Renan, produtor dos vídeos do MBL, nos quais Kataguiri encarna um samurai de desenho animado que combate a esquerda com tiradas como “justiça social é outro nome para caridade com dinheiro alheio, ou gozar com o pau dos outros”.
Desde 1º de novembro, quando organizou o primeiro protesto contra Dilma em São Paulo, o trio do MBL já aparecia na tevê e dava entrevistas a jornais e portais. Mas as cerca de oitenta pessoas que compareceram ao teatro não eram curiosos, tampouco o público do shopping, um dos mais luxuosos do Rio. Eram em sua maioria militantes já convertidos, a quem os líderes do MBL – vestidos como profissionais liberais, de camisa sem gravata – deram dicas de como fazer amigos e ganhar adeptos.
Além do exorcista de esquerdistas, na plateia havia gente como um médico revoltado com o Mais Médicos; um senhor que frequenta o Clube Militar; oito jovens de um grupo liberal de Niterói, além de uma pequena empresária do setor de óleo e gás, aplaudida quando anunciou que seus funcionários petistas seriam os primeiros a ser demitidos devido à perda de contratos provocada pelo escândalo da Petrobras. Também estavam lá Felipe Moura Brasil, blogueiro da Veja, e Bernardo Santoro, diretor executivo do Instituto Liberal, o IL, que na campanha presidencial atuou como coach do pastor Everaldo, o candidato do Partido Social Cristão – no debate, o pastor foi elogiado por ter defendido a privatização da Petrobras no Jornal Nacional.
Kim Kataguiri e os irmãos Santos se definem como liberais quanto à economia, a favor do Estado mínimo. Direita para eles é elogio – até fizeram troça de um artigo na Folha de S.Paulo que os chamou de “centro-direita” (“Talvez porque a gente não defenda o golpe militar”). Da imprensa, só pouparam a Veja. Ficaram especialmente irritados porque o Datafolha contou 210 mil pessoas na avenida Paulista em 15 de março – depois que a Polícia Militar anunciara que a multidão havia batido a marca de 1 milhão. Os argumentos do trio pelo impeachment, porém, foram tirados de um artigo e de uma entrevista dos advogados Ives Gandra Martins e Modesto Carvalhosa publicados no jornal paulista.
Renan Santos estudou direito na USP, onde, citando Michel Foucault, disse ter conhecido a “microfísica” do poder petista. Em 2014, atuou com o irmão na campanha de Paulo Batista, candidato a deputado estadual em São Paulo pelo Partido Republicano Progressista. O vídeo em que Batista atacava a USP com seu “raio privatizador” fez sucesso na internet, mas não na urna: com menos de 19 mil votos, ele não se elegeu.
Kim Kataguiri abandonou a faculdade de economia e criou no Facebook a página Liberalismo da Zoeira. Na eleição presidencial, participou com os irmãos Santos da elaboração do vídeo Jornal do Futuro – Danilo Gentili 2018, em que o comediante apresenta um telejornal da República Bolivariana do Brasil – a foice e o martelo aparecem no canto do vídeo, o governo importa policiais cubanos e “Chico Buarque está na França, mas mandou avisar que apoia essas medidas”.
No debate, os fundadores do MBL citaram seu livro-texto, As Seis Lições, de Ludwig von Mises, economista da escola liberal austríaca, antikeynesiano e contrário a qualquer política distributivista (Milton Friedman o considerava intolerante). O livro pode ser baixado no site do IL e do Instituto Ludwig von Mises, ambos parte de um conjunto de centro de estudos de direita que vem ganhando corpo no país. O IL lista como seus parceiros o Instituto Millenium, o Instituto Ordem Livre e o Instituto de Formação de Líderes, que organiza anualmente o Fórum Liberdade e Democracia.

Guardadas as proporções, há vários pontos em comum entre o proselitismo ultraconservador no Brasil e nos Estados Unidos – onde a partir dos anos 70, tempo de recessão e crise política que resultou na renúncia de Richard Nixon, uma série de think tanks passou a desafiar o consenso social da Era Roosevelt, iniciada com o New Deal.
Como também vem se esboçando no Brasil, a direita americana ocupa, grosso modo, duas vertentes que se entrecruzam: uma, ligada às igrejas neopentecostais, dá ênfase aos “valores morais”; outra, liberal, prega cortes nos impostos e na previdência social. Os libertários, uma subcorrente desta última, se distinguem por rejeitar qualquer ingerência na vida do indivíduo, defendendo por isso a legalização das drogas. Os propagandistas dessa direita ressurgente tacharam Barack Obama de socialista e muçulmano. Seu subproduto mais recente é o Tea Party, movimento que se tornou influente no Partido Republicano e acaba de lançar seu primeiro pré-candidato à Presidência, o senador pelo Texas Ted Cruz.
Em 2008, o articulista Olavo de Carvalho, guia espiritual da ultradireita, apoiou a tese marginal mas barulhenta dos denominados birthers – a de que Obama teria nascido no Quênia e apresentara uma certidão de nascimento falsa para concorrer à Presidência. Carvalho, que já foi favorável à intervenção militar no Brasil contra uma suposta conspiração comunista, hoje é uma referência para os líderes do MBL. Kataguiri gravou conversas em vídeo com ele, disponíveis na internet. A sintonia entre os rapazes e o veterano se reflete, por exemplo, na posição de que falar de reforma política agora é diversionismo. Para não romper a unidade da direita nem tirar o foco do impeachment, o MBL não se pronuncia sobre temas como aborto, drogas, casamento gay e aquecimento global.
Tal qual a direita americana, a brasileira ataca a ampliação dos direitos sociais que aqui marcou a transição para a Nova República e a Constituição de 1988. Cultiva a aversão à elite acadêmica e vê as universidades como “antros de Marilenas Chauis” – segundo Renan Santos, uma “esquerda estética”, que anda de bicicleta e se entusiasma com as recentes vitórias eleitorais do Podemos, na Espanha, e do Syriza, na Grécia. “Eles estão se sentindo nos anos 60, é meio vintage, podem usar uma bolsa com franjinhas e uma boca de sino”, disse Santos.
Quando um rapaz do grupo de Niterói – vestindo uma camiseta com a inscrição “Menos Marx, mais Mises” – perguntou se valia a pena “tentar mudar o pessoal da Universidade Federal Fluminense”, Santos disse que achava perda de tempo. Mas ressaltou a importância de sair da internet e “tomar a rua”. Deu como exemplo a aula pública com banda de música que o MBL fez no vão do Museu de Arte de São Paulo, em janeiro, para mostrar que “é uma falácia” a reivindicação de passe livre no transporte público. “O pessoal ia lá pensando que era um show de rock e tomava liberalismo na cara”, disse Kataguiri.
Outra característica que a direita brasileira compartilha com a americana é a exploração do ressentimento de setores que se consideram prejudicados pela legislação trabalhista, a rede de proteção social para os pobres, as cotas para negros – também nos Estados Unidos, programas destinados a equalizar as oportunidades foram qualificados de “socialistas”. “O PT te culpa por ser homem, branco ou heterossexual”, disse Renan Santos. “Um empreendedor no Brasil enfrenta a Justiça trabalhista e fiscais da Receita estadual, até piores que os da Federal.”

Renan Santos e Kataguiri votaram em Aécio Neves nos dois turnos em 2014, mas demonstram fastio com o PSDB – que, a despeito de ter conclamado seus apoiadores a protestar no dia 15, ainda não aderiu à tese do impeachment. Como na simbiose que ocorreu entre setores republicanos e o Tea Party, o MBL “adoraria obrigar” o PSDB a incorporar suas ideias. “O liberalismo é totalmente minoritário no partido, fizeram privatizações a contragosto.”
Santos reconheceu que os protestos “são úteis até certo ponto” para os tucanos, que falaram em “sangrar” o governo, mas emendou: “Eles não querem que a gente traga o tema do impeachment. O ideal para o PSDB é a gente organizar manifestações todo mês até 2018, reivindicando qualquer outra coisa. Aí o Aécio ou outro candidato deles seria o favorito.”
Questionado se o MBL planejava formar um partido, Santos, ciente do sentimento antipolítica no ar, perguntou ao auditório: “Vocês veem algo de errado na gente lançar candidato?” A resposta foi não. Depois, elogiou o Partido Novo, fundado em 2011 e ainda pleiteando o registro, mas disse que não sabe como a agremiação poderá enfrentar a máquina tucana. Em sua página no Facebook, o Novo defende o fim das estatais, do voto obrigatório e do fundo partidário. Num post do dia 13 de março – quando a CUT e outros grupos fizeram um ato em defesa do governo –, considerou que a rua é para “pessoas livres”, e não para partidos e sindicatos, que devem utilizar “canais próprios de reivindicação”.
Para quem se queixa de que estão “sozinhos, sem ninguém ajudando”, os líderes do MBL demonstraram uma desconcertante autoconfiança. A plateia queria saber como pressionar Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, a pôr o impeachment na pauta. “Dois milhões de pessoas na rua é voto. O Cunha não tem opção”, afirmou Kataguiri. (Havia um novo protesto contra Dilma convocado para 12 de abril.)
O tema da corrupção, dominante nas ruas, surgiu nas perguntas do público. Os rapazes disseram que reduzir o Estado seria uma maneira de “não deixar o dinheiro na mão do bandido”, mas ressaltaram que no momento “o problema não é a corrupção em si”. Alegaram que, enquanto peemedebistas e tucanos embolsariam o roubo, o PT o utilizaria para dominar o Legislativo. “Isso é golpe contra a República, ou Montesquieu estava louco”, disse Renan Santos.
O MBL não se furtou a alimentar a obsessão da plateia contra o Foro de São Paulo, que reúne organizações de esquerda latino-americanas. Mas atribuiu a teorias conspiratórias a especulação de que teria recebido dinheiro dos irmãos Koch, donos de um conglomerado industrial, fundadores do Instituto Cato e financiadores de causas ultraconservadoras nos Estados Unidos. O tema surgiu por causa da publicação de textos de integrantes do grupo Estudantes pela Liberdade, o EPL, no site do MBL. O EPL é a versão nacional do Students for Liberty, bancado pelo Cato.
“A elite branca está pouco se lixando para a gente”, disse Kataguiri. O trio diz que 70% de sua sobrevivência decorrem de microdoações pela internet. O resto vem de “um empresário ou outro”. O MBL não divulga nomes de doadores.
No Facebook, o Brasil Livre tem menos curtidas do que seus parceiros – e concorrentes – na convocação das manifestações. Enquanto o Vem pra Rua se diz acima das ideologias e o Revoltados Online é o mais ostensivamente raivoso, o MBL tem como alvo o público jovem – e os protestos do dia 15 tiveram uma presença forte de pessoas mais velhas e de famílias, mas menos jovens em grupos, como é comum nos atos da esquerda. “A gente criou uma linguagem que mescla diversão, provocação e um pouco de rock and roll, o que confunde o adversário”, disse Renan Santos. Depois dos atos, é preciso cuidar da narrativa. “Em tempos de pau de selfie, o importante não é tanto a história que você faz, mas a história que você conta.”
A estratégia comunicativa visa, segundo os rapazes, superar o estigma de que a direita é “coxa”, pesada e convencional. “Eu vou a festas boas, tenho amigos gays, negros, artistas. Dá para ser legal sem votar no PT ou no PSOL”, disse Alexandre Santos. No fim do debate, a plateia logo se dispersou. Não houve chope nem pizza coletivos. O trio do MBL foi jantar com um grupo restrito em um restaurante no próprio shopping.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-103/chegada/tea-party-a-brasileira

quarta-feira, 18 de março de 2015

70 - O PT e a busca da hegemonia

O significado do 15 de Março de 2015

Ou, por que a sabedoria está em confiar em quem busca a verdade, e sempre desconfiar de quem quer ter a hegemonia da verdade

Por: Eurípedes Alcântara

O domingo passado será lembrado em nossa história como um marco delimitador do avanço do hegemônico do PT no Brasil. O modelo de dominação política que o PT detalha nos seus documentos, resoluções e cartilhas exige duas condições básicas para funcionar. A primeira é a censura à imprensa, com evolução para a completa supressão da liberdade de expressão. A segunda, é um corolário da primeira e responde pelo nome de "hegemonia". A obsessão com a conquista da "hegemonia" é forte no PT, mas seus doutrinadores sempre se esquivam de explicar o que isso significa.

É difícil encontrar uma manifestação oficial do PT em que a expressão "hegemonia" não apareça. Um entre centenas de exemplos está na Resolução Política divulgada pelo PT logo depois da contagem dos votos das eleições passadas, que deram a vitória nas urnas a Dilma Rousseff. Diz o documento: "É urgente construir hegemonia na sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia".

Do Dicionário Houaiss:
Hegemonia (substantivo feminino)
1 - Supremacia, influência preponderante exercida por cidade, povo, país etc. sobre outros
2 - Derivação: por extensão de sentido, autoridade soberana; liderança, predominância ou superioridade

Com base apenas no verbete de dicionário, já seria altamente suspeito que um partido político coloque para si como objetivo "urgente" conquistar a "autoridade soberana" e a "predominância" sobre os outros. Qualquer partido que tenha a hegemonia como objetivo não pode, por definição, ser um partido democrático.

O PT, portanto, precisa entender que, de duas, uma: ou renuncia à hegemonia ou desespere de ser visto como um partido apto para o jogo democrático, cuja premissa é a de que nenhum dos participantes deve objetivar a "autoridade soberana" sobre os outros.

Os doutrinadores petistas escapam como bagres ensaboados quando se pede que expliquem ao distinto público, afinal, que raios entendem por hegemonia. Entre quatro paredes eles debatem avidamente esse ponto. Melhor poupar o leitor de devaneios sobre as origens e variações filosóficas da hegemonia política e saltar para o que realmente interessa:

1) Quem, quando e onde obteve essa hegemonia.

2) O que foi preciso para alcançá-la.

Vamos lá.

1) A hegemonia pela qual o PT é obcecado só existiu e existe em regimes totalitários em que a democracia foi erradicada: na Rússia soviética sob Stálin, na Alemanha nazista sob Hitler e, perifericamente, em países irrelevantes como Cuba e Coréia do Norte.

2) Para obter a hegemonia naqueles países foi necessário:

a) Formar um regime de partido único colocando na ilegalidade todos os demais

b) Prender, fuzilar ou exilar depois de julgamento sumário as pessoas que pensassem de forma diferente

c) Censurar todas as formas de expressão cultural e eliminar a imprensa livre

Vamos reler o trecho da recente resolução do PT em sua forma dissimulada: "É urgente construir hegemonia na sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia".

E, agora, substituindo os termos abstratos pelo que eles significam na prática: "É urgente formar um partido único colocando na ilegalidade todos os demais, promover a retirada de circulação de todas as pessoas que pensem de forma diferente, com ênfase na censura à imprensa e supressão de todas as formas de expressão em desacordo com o partido".

Podemos estar cometendo uma injustiça atribuindo ao PT objetivos que nem de longe são os acalentados pelo partido? Existe a possibilidade de que esses objetivos sejam privativos de uma ala radical e minoritária do PT? Sim, mas para que isso fique claro seria do interesse do próprio PT que seus dirigentes explicassem esse ponto com maior clareza.

Enquanto o esclarecimento não chegar às massas vestidas de verde e amarelo que foram às ruas no domingo passado e já preparam novas manifestações, elas vão gritar que "nossa bandeira nunca será vermelha". Em outras palavras, enquanto o PT não explicar como pretende obter a hegemonia e o que planeja fazer com ela caso atinja seu objetivo, o mais prudente mesmo é seguir o sábio conselho do escritor francês André Gide, premiado com o Nobel de Literatura em 1947: "Confie em quem busca a verdade, mas sempre desconfie de quem a encontrou".

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/o-significado-do-15-de-marco-de-2015

terça-feira, 17 de março de 2015

69 - Os Idos de Março

Os Idos de Março

O 15 de março é uma data carregada de história – e de ficção

Por: Eurípedes Alcântara
 
Depois das grandes manifestações dos brasileiros contra o governo no domingo, dia 15 de março, muita gente se lembrou que há trinta anos, em um 15 de março, José Sarney tomou posse na presidência da República, colocando fim no regime militar instaurado em 1964. Fernando Collor também tomou posse em 1990 em um 15 de março, embora a data mais lembrada de seu atribulado período de poder seja o 29 de novembro de 1992, quando, em meio a um processo de impeachment no Congresso Nacional, deixou o Palácio do Planalto.

Mas esses eventos empalidecem diante de dois registros históricos de 15 de março. A chegada de Cristóvão Colombo à Espanha depois de descobrir a América e o assassinato de Julio César, o ditador romano apunhalado no ano 44 aC por senadores enciumados com seu crescente poder e temerosos do provável plano de se tornar ditador perpétuo da República Romana.

Os acontecimentos em torno do assassinato do grande general romano são mais conhecidos pela tragédia Júlio César, de William Shakespeare, do que mesmo pelos registros dos historiadores Lívio, Cassius Dio e Suetônio. Sobrevivem muitas ambiguidades a respeito de César. Muitas, mas não todas, introduzidas na corrente do pensamento moderno por Shakespeare. Como Kaiser e Czar, títulos dos monarcas alemães e russos, derivam de Cesar, dá-se quase sempre a confusão de que ele foi imperador de Roma - também por que se fazia chamar Gaius Julius Caesar Imperator et Pontifex Maximus. Ele era Imperatur para seus comandados nas legiões. Imperatur é comandante. Pontifex Maximus definia seu cargo (aliás, comprado pelos parentes ricos) de mais alto sacerdote.

A Roma de Julio Cesar era uma república. Seu filho adotivo, Otávio, foi o primeiro imperador romano. Shakespeare não se confunde nessa questão, mas, interessado em escrever uma peça só para ela, o dramaturgo inglês apagou de Júlio César a presença de Cleópatra, que estava em Roma no dia do assassinato de César. É de Shakespeare também a criação das derradeiras palavras de César ao receber a última das 23 punhaladas fatais dadas pelos senadores daquele que mais amava - e que as línguas de Roma diziam ser seu filho, apesar de César ter quinze anos quando o senador nasceu: "Et tu, Brute!" ("Até você, Brutus!" ).

Os mesmos rumores de que Cesar era pai de Brutus dão como mais certo que ao morrer o ditador falou em grego "Kai su, teknon!" ("Até você, filho!). Como forma de se diferenciar do latim da patuleia, os senadores romanos mais cultos em 44 antes de Cristo discursavam e conversavam em grego.

Shakespeare aproveita isso no diálogo entre Casca e Cássio, senadores aliados de César. Casca relata a César e a Cássio como foi a sessão do Senado naquela tarde.

CÁSSIO: Cícero falou alguma coisa?
CASCA: Sim, ele falou em grego.
CÁSSIO: E qual foi a reação?
CASCA: …não entendi nada… aquilo foi grego para mim.

Assim Shakespeare ajudou a impulsionar rumo ao nosso tempo a expressão latina "Graecum est; non legitur", que os monges medievais diziam de manuscritos em grego que não conseguiam traduzir. Deu no nosso familiar "Isso pra mim é grego", que usamos para dizer que não entendemos nada sobre que acabamos de ler ou ouvir.

Voltando ao 15 de março. Naquele dia, na peça, um adivinho no meio da multidão grita na direção de César quando ele ia para o Senado para o encontro com a morte: "Cuidado com os Idos de Março."
Desde então, a expressão os Idos de Março é usada para assinalar algum perigo iminente, mas ignorado. Outras datas referenciais do calendário lunar romano, as "Nonas" e as "Calendas" não tiveram a sorte de aparecer na peça de Shakespeare. As Nonas (o quinto ou sétimo dia, dependendo do número de dias do mês) praticamente foram esquecidas. As Calendas (o primeiro dia do mês seguinte) sobreviveram na expressão "Fica para as calendas gregas", significando que algo foi adiado indefinidamente. No calendário grego não havia calendas. Os Idos de Março, originalmente, marcavam o primeiro dia de lua cheia do Ano Novo, mas no tempo de Julio César eles já se referiam aos dias 13, 14 e 15 de Março. Mais de dois mil anos se passaram e os Idos de Março ainda assombram.


http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/os-idos-de-marco

sábado, 30 de agosto de 2014

68- A Terceira Via e as eleições de 2014 no Brasil


Um "longo textinho" meu a respeito da base ideológica dos candidatos ao governo do Brasil:

Desde 1994, todos os principais presidenciáveis defendem para o Brasil alguma modalidade de TERCEIRA VIA, uma política intermediária entre a total ou ampla estatização da economia (proposta pelo socialismo marxista da extrema esquerda) e a não intervenção estatal ou Estado mínimo (proposto pela direita liberal, chamada também de "neoliberal").  A ideia de um "terceiro caminho" de modernidade (a sociedade industrial e secular) entre o socialismo estatizante e o capitalismo liberal ganhou força no Ocidente com (1) a transformação do socialismo reformista, que preconizava abolir o capitalismo gradualmente por meio de reformas, na SOCIAL-DEMOCRACIA (processo iniciado no final do século XIX e concluído em meados do século XX) e (2) com ascensão do FASCISMO/NAZISMO (décadas de 1920 e 1930). Ambos possuíam em comum a aceitação de um capitalismo regulamentado, se necessário com a estatização de um setor ou outro, combinado com amplos serviços públicos e uma legislação social que protegeria os trabalhadores na economia de mercado. Era a idealização de um Welfare State ou Estado de bem-estar social, objetivo reforçado pelas ideias econômicas do keynesianismo (Estado interventor estimulando a geração de empregos, inclusive com obras públicas) difundidas sob o impacto da Grande Depressão dos anos de 1930. Obviamente, existiam diferenças entre esses tipos de "terceiro caminho". Entre elas podemos destacar a manutenção da democracia liberal (multipartidarismo, eleições livres, liberdade de expressão, tolerância ideológica) e de sindicatos livres pela social-democracia e sua substituição, no fascismo, pela ditadura monopartidária em nome de um nacionalismo extremista (o partido representa a nação e submete o indivíduo e todas as classes a sua liderança), com sindicatos controlados pelo governo. Essas duas modalidades gerais de "vias alternativas" (a democrática e a autoritária), com suas variáveis, existem até hoje. Algumas enfatizam uma maior presença do Estado na economia, outras uma maior desregulamentação e algumas privatizações (essas são erradamente acusadas pelos estatizantes de "neoliberais") . Algumas são mais intolerantes com a oposição política, outras sabem conviver democraticamente com a crítica e a divergência.  Mas todas defendem, em graus variados, uma presença do Estado na economia, serviços públicos de qualidade e legislação social e trabalhista, de uma forma que tanto os liberais clássicos e os socialistas marxistas condenam. Os liberais clássicos consideram que o "terceiro caminho" limita a livre iniciativa no mercado e impede ou reduz drasticamente o progresso econômico. Os socialistas afirmam que o "terceiro caminho", por preservar o capitalismo, mantém as diferenças de classes (e, portanto, a "luta de classes") e impede a construção de uma nova sociedade igualitária e justa favorável aos trabalhadores.

Hoje, o termo "Terceira Via" ficou mais associado a uma modalidade da corrente democrática do "terceiro caminho" desenvolvida nas décadas de 1980 e 1990, sob a influência das ideias do sociólogo Anthony Giddens e do "novo trabalhismo" britânico liderado por Tony Blair. Nesse sentido britânico, a Terceira Via defende a democracia e a justiça social (redução das desigualdades) combinadas com o equilíbrio das contas públicas, o combate à inflação, descentralização, parcerias público-privadas e estímulo ao mercado. Em suas linhas gerais, essa Terceira Via foi adotada pelo Partido Democrata dos EUA, sob o governo Bill Clinton, e pelo PSDB, no Brasil, sob FHC. Mas mesmo essa posição tem subvariáveis econômicas (maior ou menor desregulamentação, privatizações). Grosso modo, os defensores de um Terceira Via menos estatizante em termos econômicos foram tachados pelos seus adversários de "direita" e de "neoliberais", ao passo que os mais estatizantes se consideram de "esquerda".
No Brasil de hoje, a "direita" da Terceira Via (que não é "neoliberal"), representada pelo PSDB e pelo candidato Aécio Neves, é também mais democrática e tolerante, além de mais responsável economicamente (mais capaz de retomar o crescimento, modernizar o país, gerar mais empregos e reduzir as desigualdades). A "esquerda" é representada pelo PT e a candidata Dilma Rousseff, que afirmam ser mais dedicados à justiça social, mas que têm demonstrado uma enorme incapacidade de assegurar a retomada do crescimento econômico e uma perigosa intolerância política com a crítica e a oposição, tanto da imprensa quanto dos adversários dos outros partidos. O PSB e a candidata Marina, por sua vez, parecem representar uma linha também esquerdizante da Terceira Via (fizeram parte do governo petista), ainda que sua assessoria econômica oficial esteja mais próxima de posturas mais a direita. Marina, e não necessariamente o PSB, também tem dado sinais de intolerância com a crítica e a divergência política. Diante de tudo isso, hoje, Aécio e o PSDB representam a melhor alternativa democrática e moderna para o Brasil nos limites de uma Terceira Via.

domingo, 20 de julho de 2014

67- Bretton Woods: 70 anos


Os 70 anos da Conferência de Bretton Woods: dois artigos que saíram no jornal o Globo de hoje.

A CONFERÊNCIA DE BRETTON-WOODS: UM ESPELHO DISTANTE...

Bases da ordem econômica do pós-guerra foram traçadas no encontro em 1944

Luiz Carlos Delorme Prado - Professor do Instituto de Economia da UFRJ

Em um mundo repleto de encontros entre chefes de estado, reuniões de cúpulas, fóruns internacionais, há, hoje, um imenso ceticismo sobre a capacidade de uma conferência financeira internacional enfrentar os complexos problemas da ordem econômica mundial. No entanto, há 70 anos, por três semanas, entre o dia 1º e 22 de julho de 1944, reuniram-se no Mount Washington Hotel, em Bretton Woods, New Hampshire, nos Estados Unidos, 174 delegados de 44 países, para negociações que estabeleceram as bases da ordem econômica internacional do pós-guerra.

O contexto da reunião foi único – por um lado, marcava a consolidação da hegemonia econômica e política norte-americana – obtendo para o dólar uma posição de “privilégio exorbitante”, como acusou, na década de 1960, o ministro da fazenda da França, Giscard D’Estaing. Por outro lado, criou uma ordem internacional que permitiu, durante pouco menos de três décadas, a mais elevada taxa de crescimento da economia mundial jamais registrada, acompanhada por pleno emprego e crescimento dos direitos sociais, com a expansão do Estado de Bem-Estar Social – um período chamado pelos historiadores britânicos (como Hobsbawm) de “Golden Years” e franceses (como Jean Fourastié) de “Les Trente Glorieuses”.

Duas figuras históricas destacaram-se no encontro: pelo lado britânico, no apogeu da sua maturidade, John Maynard Keynes; pelo lado americano, um dos grandes quadros do Departamento do Tesouro desse país, Harry Dexter White.

O Brasil teve uma presença relevante. A delegação brasileira, com treze delegados, foi chefiada por Artur de Souza Costa, então Ministro da Fazenda. Entre seus integrantes estavam alguns economistas que tiveram grande influência no debate e na formulação de políticas econômicas no Brasil. Entre eles, Francisco Alves dos Santos-Filho, que seria Diretor Executivo do FMI (1946-1948) e representante brasileiro no Banco Mundial; o rico e influente empresário Valentin Bouças e, ainda, Eugênio Gudin, Octávio Gouvea de Bulhões e Roberto Campos. As discussões foram organizadas em três comissões. Souza Costa, chefe da delegação brasileira, presidiu um dos quatro comitês da Comissão I, coordenada por White, que tratava da criação e do funcionamento do FMI, um dos temas mais espinhosos da conferência.

O principal objetivo era evitar que a economia mundial posterior à Segunda Guerra Mundial repetisse a trágica história econômica do período entre as duas guerras. Em especial, temia-se a repetição do impacto causado na vida de milhões de pessoas em decorrência do desemprego e da desorganização da economia provocada pela Grande Depressão. Keynes defendeu com tenacidade e brilhantismo a construção de um novo Sistema Monetário Internacional que definitivamente abandonasse os erros do antigo Padrão Ouro. Apesar das dificuldades, conseguiu que fossem aceitas algumas de suas propostas mais importantes. Ao final, como dizia Churchill, os Estados Unidos faziam a coisa certa, depois que fracassaram todas as outras alternativas.

A ordem econômica criada por Bretton-Woods tinha qualidades que superavam, em muito, seus maiores defeitos. Quando essa ordem foi abandonada, na década de 1970, o mundo viu-se novamente sujeito à crescente instabilidade financeira. Ao final, em 2008, eclodiu uma nova crise internacional em muitos aspectos similar à da década de 1930. Nada indica, porém, que seja possível repetir nos dias atuais uma negociação com a envergadura e a profundidade da empreendida naqueles dias de verão no resort americano.

Em um mundo repleto de encontros entre chefes de estado, reuniões de cúpulas, fóruns internacionais, há, hoje, um imenso ceticismo sobre a capacidade de uma conferência financeira internacional enfrentar os complexos problemas da ordem econômica mundial. No entanto, há 70 anos, por três semanas, entre o dia 1º e 22 de julho de 1944, reuniram-se no Mount Washington Hotel, em Bretton Woods, New Hampshire, nos Estados Unidos, 174 delegados de 44 países, para negociações que estabeleceram as bases da ordem econômica internacional do pós-guerra.

O contexto da reunião foi único – por um lado, marcava a consolidação da hegemonia econômica e política norte-americana – obtendo para o dólar uma posição de “privilégio exorbitante”, como acusou, na década de 1960, o ministro da fazenda da França, Giscard D’Estaing. Por outro lado, criou uma ordem internacional que permitiu, durante pouco menos de três décadas, a mais elevada taxa de crescimento da economia mundial jamais registrada, acompanhada por pleno emprego e crescimento dos direitos sociais, com a expansão do Estado de Bem-Estar Social – um período chamado pelos historiadores britânicos (como Hobsbawm) de “Golden Years” e franceses (como Jean Fourastié) de “Les Trente Glorieuses”.

Duas figuras históricas destacaram-se no encontro: pelo lado britânico, no apogeu da sua maturidade, John Maynard Keynes; pelo lado americano, um dos grandes quadros do Departamento do Tesouro desse país, Harry Dexter White.

O Brasil teve uma presença relevante. A delegação brasileira, com treze delegados, foi chefiada por Artur de Souza Costa, então Ministro da Fazenda. Entre seus integrantes estavam alguns economistas que tiveram grande influência no debate e na formulação de políticas econômicas no Brasil. Entre eles, Francisco Alves dos Santos-Filho, que seria Diretor Executivo do FMI (1946-1948) e representante brasileiro no Banco Mundial; o rico e influente empresário Valentin Bouças e, ainda, Eugênio Gudin, Octávio Gouvea de Bulhões e Roberto Campos. As discussões foram organizadas em três comissões. Souza Costa, chefe da delegação brasileira, presidiu um dos quatro comitês da Comissão I, coordenada por White, que tratava da criação e do funcionamento do FMI, um dos temas mais espinhosos da conferência.

O principal objetivo era evitar que a economia mundial posterior à Segunda Guerra Mundial repetisse a trágica história econômica do período entre as duas guerras. Em especial, temia-se a repetição do impacto causado na vida de milhões de pessoas em decorrência do desemprego e da desorganização da economia provocada pela Grande Depressão. Keynes defendeu com tenacidade e brilhantismo a construção de um novo Sistema Monetário Internacional que definitivamente abandonasse os erros do antigo Padrão Ouro. Apesar das dificuldades, conseguiu que fossem aceitas algumas de suas propostas mais importantes. Ao final, como dizia Churchill, os Estados Unidos faziam a coisa certa, depois que fracassaram todas as outras alternativas.

A ordem econômica criada por Bretton-Woods tinha qualidades que superavam, em muito, seus maiores defeitos. Quando essa ordem foi abandonada, na década de 1970, o mundo viu-se novamente sujeito à crescente instabilidade financeira. Ao final, em 2008, eclodiu uma nova crise internacional em muitos aspectos similar à da década de 1930. Nada indica, porém, que seja possível repetir nos dias atuais uma negociação com a envergadura e a profundidade da empreendida naqueles dias de verão no resort americano.

BRETTON WOODS, 70 ANOS: FORA DA NOVA ORDEM MUNDIAL

No aniversário do histórico encontro, economistas defendem negociações para reforma de FMI e Banco Mundial

por Flávia Barbosa, correspondente

WASHINGTON - Em julho de 1944, 730 delegados de 44 países se reuniram no estado de New Hampshire, nos EUA, para a Conferência de Bretton Woods (em homenagem à cidade-sede da cúpula), com a missão de refundar a ordem econômica global. Sob a inspiração do economista britânico John Maynard Keynes e a articulação de Harry Dexter White, do Tesouro americano, as negociações estabeleceram as bases para o funcionamento da economia mundial, com um regime de câmbio fixo atrelado ao dólar e lastreado em ouro; a criação das instituições multilaterais de socorro – Fundo Monetário Internacional (FMI) — e reconstrução e desenvolvimento – Banco Mundial (Bird); e o rascunho dos princípios para o que três anos mais tarde seria o Acordo Geral de Tarifas do Comércio (GATT,embrião da OMC). Setenta anos depois, dizem os especialistas, mais do que celebrar o legado de Bretton Woods, as nações precisam se inspirar naquela jornada e ter a coragem política de começar discussões para uma nova arquitetura econômica e financeira mundial.

— O mundo precisa de novas negociações, à luz das transformações das últimas décadas — afirma Robert Johnson, diretor do Instituto para o Novo Pensamento Econômico e ex-integrante da comissão da ONU encabeçada pelo nobel Joseph Stiglitz para reforma do sistema monetário internacional. — Bretton Woods foi grandioso porque havia a consciência de que os países precisavam uns dos outros. Agora há necessidade, mas podem as nações reconhecê-la e se comprometerem? É possível hoje construir o entusiasmo do consenso?

Bretton Woods foi fruto do senso de urgência da comunidade internacional, lembra Marcos Troyjo, diretor do Brics-Lab da Universidade de Columbia. Naquele 1944, o mundo completava duas décadas e meia de vida no abismo, com episódios de hiperinflação, o crash da Bolsa em 1929, a depressão dos anos 30 e a devastação provocada pela Segunda Guerra Mundial, que acabaria menos de um ano depois.

Neste período, notadamente as nações europeias e o Japão esgotaram seus ativos financeiros (reservas em dólar e libra, ouro), suas estruturas econômicas estavam capengas e o comércio global, travado. Diante de tamanho desafio, a resposta dos aliados foi coordenação. Para religar as engrenagens das economias, foi criado um sistema de câmbio fixo, no qual todas as moedas se atrelaram ao dólar e os EUA a lastreavam em ouro.

O regime – ao permitir a conversibilidade das moedas – restaurou a capacidade de os países realizarem grandes transações comerciais e financeiras. Havia controles de capitais. Como os recursos eram escassos, o FMI foi criado como instituição de socorro para casos de falta de liquidez no mercado. E, com a Europa em frangalhos, o Banco Mundial – que nasceu Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) – surgiu como instituição de fomento.

— A estabilização e a retomada do crescimento, com renovado fluxo de comércio, são os grandes legados de Bretton Woods. O sistema permitiu ainda o renascimento de um mercado de capitais e o desenvolvimento da Europa. Mais de 20 anos depois, a experiência era tão bem-sucedida, com trocas comerciais e financeiras intensas, que o câmbio fixo tornou-se insustentável e caiu em 1971, inaugurando a era de câmbio flutuante na qual vivemos — explica Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI e professor de Harvard.

Desde então, os últimos 40 anos foram marcados pela globalização, com a internacionalização das finanças e do comércio. Um volume brutal de capitais passou a circular diariamente entre nações e os bancos começaram a operar sem obedecer fronteiras. Novos instrumentos financeiros surgiram. Os EUA, que ditaram sozinhos os rumos dos primeiros 25 anos após Bretton Woods, ganharam rivais, em um mundo multipolar com gigantes comerciais como Alemanha e Japão e a emergência da China como superpotência econômica.

Estas mudanças, diz Robert Johnson, trouxeram instabilidade e elevado risco de contágio. De um lado, o câmbio flutuante absorve melhor choques externos, ajustando a cotação das moedas frente ao dólar sem que os governos tenham que exaurir reservas ou se endividar para cobrir rombos em conta corrente. Por outro, movimentos bruscos e vultosos, de entrada ou saída de capitais, descompensam as economias, retiram competitividade, favorecem a formação ou fazem estourar bolhas de ativos e deixam os sistemas bancários vulneráveis.

REGULADOR ‘COM MAIS DENTES’

Em outras palavras, o sistema monetário e financeiro é chegado a crises – e houve mais de uma centena delas desde a década de 70, com destaque para a Asiática, de 1997, e a global, de 2008, da qual o mundo ainda se recupera. E com os agentes interagindo como se não houvesse fronteiras, as nações perderam poder de fogo para colocar ordem na casa.

Reside aí o desafio central da comunidade internacional, diz Robert Johnson. É preciso entender melhor as ramificações dessa imensa quantidade de capitais financeiros que circula sem regulações:

— Vimos depois da crise de 2008 e da política monetária expansionista dos EUA, por exemplo, muitas medidas de controles de capitais, como no Brasil. Também deve-se reexaminar o sistema monetário, pois temos a China, com seu tamanho, administrando câmbio, o que causa assimetrias, o mundo vem tendo que se ajustar à competitividade que os chineses criam. E ainda precisamos repensar o papel desta superacumulação de reservas internacionais. Quando governos reúnem essas grandes quantidades de riquezas para proteção, há implicações para o sistema global e precisamos discuti-las.

Kenneth Rogoff vai além. Como outros economistas, defende a criação de um órgão regulador global do sistema financeiro, “com mais dentes” do que os fóruns e mecanismos que existem atualmente:

— Nós temos bancos e mercados financeiros globais, mas uma enormidade de diferentes regulações nacionais, precisamos achar uma forma de integrá-las, para dar ao sistema mais estabilidade. O problema é que a crise de 2008 nos jogou em outra direção, houve uma grande retração da globalização financeira e das políticas monetárias e regulatória. É hora de coordenação.

http://oglobo.globo.com/economia/a-conferencia-de-bretton-woods-um-espelho-distante-13309671



 

66 - Genética e raças humanas


Saiu na Veja edição eletrônica:
O NOVO RACISMO PSEUDOCIENTÍFICO

Recém lançado nos Estados Unidos, o livro 'A Troublesome Inheritance' tenta reavivar o antigo debate sobre a existência de raças humanas. Ao site de VEJA, pesquisadores explicam que não há argumento científico válido para a discussão — e demonstram que os homens são variados, mas não o suficiente para a existência de classes diferentes entre eles

Rita Loiola

Variações genéticas entre diferentes populações possibilitam o estudo de suas diferenças, origens e rotas no planeta (Robert Churchill/Thinstock)

No início do século XVIII, o biólogo sueco Carlos Lineu começou o que se tornaria sua grande herança: a classificação da natureza. Ele separou os organismos em três reinos, inventou conceitos como gêneros e espécies e, em 1758, na obra Sistema Natural, dividiu os seres humanos em quatro categorias — que chamou de raças. O uso do conceito logo se alastrou para muito além das fronteiras da biologia, insuflando preconceitos odiosos e servindo à defesa dos mais atrozes propósitos políticos, como a escravidão, o nazismo alemão e o apartheid sul-africano. Foi preciso esperar pela década de 1970 para que a ciência se encarregasse de descreditar a noção de que as diferenças entre os seres humanos são tão profundas a ponto de constituir raças. Nos últimos 40 anos, o conceito foi abandonado nos laboratórios. Mas ele volta a ser invocado pelo best-seller A Troublesome Inheritance (Uma Herança Incômoda, em tradução livre), do jornalista científico britânico Nicholas Wade.

Em suas páginas, o autor mistura os mais avançados estudos em variação genética e as antigas classes de Lineu em um esforço para reabilitar a separação da humanidade em raças. Mais que isso, especula que a seleção natural dos genes humanos seria responsável não só pela desigualdade entre os homens, mas também pelo desenvolvimento cultural econômico das sociedades. Publicado em maio, o título fez parte da lista dos livros mais vendidos do jornal americano The New York Times e gerou uma reação violenta da comunidade acadêmica de todo o planeta, mostrando que o empenho de Wade não tem fôlego para ir longe. 

"Dos anos 1970 para cá descobrimos muitas coisas surpreendentes sobre as populações e os recentes estudos de genética mostram que há variações entre elas. No entanto, hoje temos uma compreensão maior sobre o significado dessa diversidade e sabemos que aquelas categorias raciais em que acreditávamos não existem", diz o biólogo Diogo Meyer, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e um dos maiores nomes no Brasil no estudo de genética de populações. "É infinitamente mais interessante estudar as variações dos genes que falar sobre raças, algo que empobrece o debate e a pesquisa."

A grande raça humana — A primeira menção às raças humanas é de Lineu, mas o preconceito que envolve o tema só viria a se consolidar com o aristocrata francês Joseph-Arthur Gobineau, no século XIX. Sua obra Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas fundou o que hoje é conhecido como o "racismo científico", teoria que inspirou os conflitos raciais do século XX. Essas ideias só foram destruídas pela ciência em 1972, quando o biólogo americano Richard Lewontin, da Universidade Harvard, fez uma pesquisa com pessoas que fariam parte das diferentes raças e, por meio do estudo de suas proteínas — o máximo que se conhecia de informação genética humana na época —, descobriu que os homens são profundamente semelhantes. Desde então, a discussão sobre raça humana foi encerrada pela comunidade científica. Para a Associação Americana de Antropologia (AAA), nos Estados Unidos, o conceito é uma construção social, sem validade para a ciência.

A inexistência das raças não invalida outro debate que veio à tona desde 2003, com a conclusão do Projeto Genoma: a imensa variabilidade genética das populações. O sequenciamento do DNA humano forneceu aos cientistas explicações não só sobre o que há dentro dos cromossomos de um indivíduo como também sugere quais são os genes mais frequentes nas diversas regiões do mundo. Essa informação genética, submetida a pressões ambientais e selecionada pela evolução, é uma das responsáveis pelas características de europeus, americanos ou africanos.

Foi com essas informações que os cientistas descobriram que a tolerância à lactose ou ao álcool resultaram de um importante movimento evolutivo em nossos genes. E que um dos fatores que influi nas diferentes taxas de incidência de doenças crônicas nos continentes é a seleção natural. O último estudo sobre o assunto foi publicado na revista Nature, em julho, mostrando que a seleção de um gene desde a pré-história tem papel central na adaptação dos habitantes do Tibete para viver a mais de 4.000 metros de altitude.

"A evolução é um movimento contínuo e vivemos adaptações e seleção natural recentes", diz Rasmus Nielsen, professor de teoria evolutiva e genética na Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, e um dos autores da pesquisa da Nature.

Para Wade, a consequência lógica desse movimento adaptativo é que a constante pressão evolutiva tornaria esses grupos cada vez mais afastados – constituindo as raças. No entanto, a ciência mostra que esse não é o caminho que a humanidade tomou. "Ao contrário de outras espécies, nossa evolução não se dá isoladamente em diferentes regiões geográficas — algo necessário para a diferenciação em raças, linhagens ou espécies", diz Nielsen. 

Variações pouco significativas — Biologicamente, para que a existência de subespécies ou raças apareça é necessária a separação física da espécie. Assim, o material genético, submetido a pressões evolutivas dos diferentes locais, transforma-se e os grupos se dividem. Isso não aconteceu com os homens. Suas viagens e deslocamentos constantes superaram as barreiras naturais e promoveram uma troca intensa de genes, hábitos e aspectos culturais. Por meio da reprodução, a grande transferência genética entre os indivíduos não impediu o aparecimento de variações, mas evitou que suas diferenças se tornassem tão profundas a ponto de criar novas categorias biológicas. 

"A tendência é que habitantes de diferentes regiões geográficas se tornem, em pouco tempo, geneticamente semelhantes. Nossa propensão, portanto, não é de nos dividirmos em diferentes grupos, mas o oposto", diz Nielsen. "Por isso, a variação genética das populações humanas não é suficiente para validar cientificamente a existência de raças."

Uma das razões para isso é que os humanos não são geneticamente tão variados como outras espécies. Uma pesquisa publicada na revista Science em 1999 mostrou que animais como os chimpanzés possuem sequências genéticas quase quatro vezes mais variadas que os homens — e esses animais são divididos em raças. Para verificar a existência dessas categorias, os biólogos aplicam técnicas matemáticas que medem as diferenças genéticas e separam as classes. Quando o código genético humano é submetido às mesmas regras, não é possível dividi-lo dessa forma.

"Não conseguimos agrupar os homens como os chimpanzés. Nós descendemos de poucos grupos de hominídeos, o que limitou grandes diferenças genéticas", afirma o biólogo evolucionista Ian Rickard, da Universidade Durham, na Inglaterra.

Comportamento genético — Um dos antigos argumentos ressuscitados pelo livro lançado nos Estados Unidos é que a base biológica seria determinante na produção de comportamentos distintos em diferentes regiões do mundo. Dessa maneira, as variações genéticas, centrais para as condutas humanas, teriam um papel importante no desenvolvimento das sociedades e economias, tornando-as desiguais. Algumas poderiam construir culturas sofisticadas — europeias ou asiáticas — enquanto outras estariam destinadas a sociedades mais simples — como as indígenas ou africanas. Cada uma dessas categorias ou raças seria determinada, biologicamente, a um ou outro tipo de vida — o que gera um intenso debate ético na comunidade científica.

"A relação entre variações de comportamentos nas diferentes culturas e as diferenças entre as instituições sociais com base em genética evolutiva ou comportamental é, para dizer o mínimo, fantasia. Não há evidência alguma dessa ligação e ainda não conhecemos seu funcionamento", afirma Rickard.

Isso acontece porque os pesquisadores não sabem quais fatores atuam na equação genética das características complexas. "Sabemos que a genética tem influência forte no comportamento. No entanto, ainda conhecemos muito pouco sobre seu funcionamento para nos tornar capazes de afirmar algo sobre o assunto", afirma a pesquisadora Lygia da Veiga, chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias da Universidade de São Paulo (USP). "A única certeza que temos é que os fatores genéticos não são determinantes nas condutas humanas."

Características diversas — A conclusão mais contundente que os estudos de genética trouxeram aos cientistas nos últimos anos é as diferenças genéticas humanas não são organizadas em classes ou categorias, mas ocorrem em uma escala repleta de variáveis.

"Graças à revolução tecnológica, temos muitas informações quantitativas sobre os genes humanos e percebemos suas variações ocorrem como se fosse um dégradé de características", explica o biólogo Diogo Meyer. "Aplicar a isso a etiqueta de raça restringe nossos estudo, pois faz pensar que há categorias estanques, quando o que se verifica é um contínuo genético."

Assim, o tema proibido dos anos 1980 e 1990 deu lugar ao estudo das variações dessa escala, que estão sendo decifradas pelas pesquisas em genética e evolução. "A intuição de que as populações são diferentes entre si tem fundamento. Há variação genética entre elas, que torna possível estudar suas diferenças, origens e rotas no planeta. E não é preciso ter medo de falar dessa variação", afirma.

Esses estudos são importantes, principalmente, para os testes de medicamentos ou de análises de padrões de evolução de doenças em populações diversas. “Por meio do local de origem é possível ter uma série de informações sobre populações e indivíduos e isso é extremamente produtivo. No entanto, fazer ciência bem feita significa respeitar a realidade e, nesse caso, é perceber que o ser humano é variado, submetido a forças como hábitos ou culturas e não pode ser dividido em classes."

Assim, mais que procurar antigas categorizações humanas, como as propostas há três séculos, os cientistas de hoje preferem trabalhar respeitando a variação intrínseca e característica que forma a espécie humana. "Sim, há pequenas diferenças entre africanos e caucasianos, mas as semelhanças genéticas são muito maiores", afirma o biólogo Stephen Stearns, professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos, e um dos principais nomes da biologia evolutiva em todo o mundo. "Há alguma verdade genética no conceito antiquado de raça, mas é um efeito menor, sutil e está longe de ser determinante."