Pessoal, segue um link para 40 mapas interessantes (em inglês):
http://www.washingtonpost.com/blogs/worldviews/wp/2014/01/13/40-more-maps-that-explain-the-world/
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
58 - Jango
Jango e o realismo fantástico
ARTIGO – MARCO ANTONIO VILLA
Publicado em O Globo:
O Brasil é um país fantástico. Mais ainda, é um país do realismo fantástico, onde ficção se mistura com história e produz releituras ao sabor dos acontecimentos. A última tem como tema a morte do ex-presidente João Goulart, o Jango, na Argentina.
A Câmara dos Deputados fez uma investigação, ouviu dezenas de testemunhas e elaborou um longo relatório. Concluiu que não havia indícios de assassinato. Em entrevista a Geneton Moraes Neto, publicada no livro “Dossiê Brasil: as histórias por trás da História recente do país”, a senhora Maria Tereza Goulart descartou qualquer suspeita de assassinato do seu marido: “Eu estava ao lado de Jango o tempo todo, nos últimos dias. Jango morreu do coração. Tinha feito um regime violento e mal controlado. Chegou a perder 17 quilos em dois meses. E estava fumando muito. O médico já tinha dito que ele não poderia fumar.”
Jango era um cardiopata. E de longa data. No México, a 10 de abril de 1962, em visita oficial, assistindo a uma exibição do balé folclórico mexicano, no Teatro Belas Artes, o presidente teve um ataque cardíaco. Ficou desfalecido por um minuto. Atendido por médicos mexicanos, ficou impossibilitado de continuar a cumprir a agenda presidencial, sendo substituído por San Tiago Dantas. No retorno ao Brasil, o grande assunto era o estado de saúde de Jango e a possibilidade de que renunciasse à Presidência. Afinal, era o segundo ataque cardíaco em apenas oito meses. Dois meses depois, quando da recepção em palácio da seleção brasileira que partiria para a Copa do Mundo no Chile, Pelé manifestou preocupação com a saúde do presidente: “Presidente, como vão estas coronárias?” E Jango respondeu: “Estão boas, mas não tanto quanto as suas.”
Às vésperas do célebre comício da Central (13 de março de 1964), seu estado de saúde inspirava cuidados. Foi advertido que poderia ter sérias complicações com o coração. Jango desdenhou e manteve seu ritmo costumeiro de vida sedentária, alimentação inadequada, excesso no consumo de bebidas e vivendo em permanente estresse. No exílio uruguaio, também devido aos problemas com o coração, foi atendido pelo dr. Zerbini. Na França, onde esteve várias vezes, foi cuidar do coração e chegou a tentar uma consulta com o dr. Christian Barnard, na África do Sul, médico que dirigiu a equipe que fez o primeiro transplante de coração.
A transformação de Jango em um perigoso adversário do regime militar — tanto que o seu assassinato teria sido planejado pela Operação Condor — não passa de uma farsa. No exílio uruguaio, especialmente nos anos 1970, não tinha qualquer atuação política.
Tudo não passa de mais uma tentativa de mitificação, da hagiografia política sempre tão presente no Brasil. O figurino de democrata, reformista e comprometido com os deserdados foi novamente retirado do empoeirado armário. Agora pelos seus antigos adversários, os petistas. Mero oportunismo. É que a secretária dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, pretende ser candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul. E, como boa petista, não se importa de reescrever a história ao seu bel-prazer.
O cinquentenário dos acontecimentos de março/abril de 1964 é uma boa oportunidade para rever o governo Jango. O início dos anos 1960 esteve marcado pela agudização das mais variadas contradições. O esgotamento do ciclo econômico que alcançou seu auge na presidência JK era evidente. A grande migração tinha criado uma sociedade urbana e novas demandas que os governos não sabiam como atender. A tensão gerada pela Guerra Fria azedava qualquer conflito, por mais comezinho que fosse.
É nesta conjuntura que Jango tentou governar. E foi um desastre. Raciocinava sempre imaginando algum tipo de ação que significasse o abandono da política, do convencimento do adversário. Era tributário de uma tradição golpista, típica da política brasileira da época.
Nunca fez questão de esconder seu absoluto desinteresse pelas questões mais complexas da administração pública, distantes da politicagem do dia a dia. Celso Furtado, nas suas memórias (“A fantasia desorganizada”), relatou que entregou o Plano Trienal — que buscava planejar a economia nos anos 1963-1965 — ao presidente depois de exaustivas semanas de trabalho. Jango mal passou os olhos pela primeira página. Em entrevista à revista “Playboy”, em abril de 1999, Furtado foi direto: Jango “era um primitivo, um pobre de caráter”.
No polo ideológico oposto, o embaixador Roberto Campos, também nas suas memórias (“A lanterna na popa”), contou que escreveu um documento de 30 páginas relatando os contenciosos do Brasil com os Estados Unidos, em 1962, quando da visita do presidente a Washington. San Tiago Dantas, ministro das Relações Exteriores, pediu ao embaixador que reduzisse ao máximo a extensão do texto, pois com aquele volume de páginas o presidente não leria. Obediente, o embaixador sintetizou os problemas em cinco páginas, que foram consideradas excessivas. Diminuiu para três páginas. Mesmo assim, segundo Campos, Jango não leu o documento.
As reformas de base, palavra de ordem repetida à exaustão naqueles tempos, nunca foram apresentadas no seu conjunto. A definição — ainda que vaga — apareceu somente na mensagem presidencial encaminhada ao Congresso Nacional quando do início do ano legislativo, a 15 de março de 1964. E lembrar que foram apresentadas como soluções de curto prazo — mesmo sendo mudanças estruturais — durante três anos…
Deixou um país dividido, uma economia em estado caótico e com as instituições desmoralizadas. E abriu caminho para duas décadas de arbítrio.
Marco Antonio Villa é historiador
A Câmara dos Deputados fez uma investigação, ouviu dezenas de testemunhas e elaborou um longo relatório. Concluiu que não havia indícios de assassinato. Em entrevista a Geneton Moraes Neto, publicada no livro “Dossiê Brasil: as histórias por trás da História recente do país”, a senhora Maria Tereza Goulart descartou qualquer suspeita de assassinato do seu marido: “Eu estava ao lado de Jango o tempo todo, nos últimos dias. Jango morreu do coração. Tinha feito um regime violento e mal controlado. Chegou a perder 17 quilos em dois meses. E estava fumando muito. O médico já tinha dito que ele não poderia fumar.”
Jango era um cardiopata. E de longa data. No México, a 10 de abril de 1962, em visita oficial, assistindo a uma exibição do balé folclórico mexicano, no Teatro Belas Artes, o presidente teve um ataque cardíaco. Ficou desfalecido por um minuto. Atendido por médicos mexicanos, ficou impossibilitado de continuar a cumprir a agenda presidencial, sendo substituído por San Tiago Dantas. No retorno ao Brasil, o grande assunto era o estado de saúde de Jango e a possibilidade de que renunciasse à Presidência. Afinal, era o segundo ataque cardíaco em apenas oito meses. Dois meses depois, quando da recepção em palácio da seleção brasileira que partiria para a Copa do Mundo no Chile, Pelé manifestou preocupação com a saúde do presidente: “Presidente, como vão estas coronárias?” E Jango respondeu: “Estão boas, mas não tanto quanto as suas.”
Às vésperas do célebre comício da Central (13 de março de 1964), seu estado de saúde inspirava cuidados. Foi advertido que poderia ter sérias complicações com o coração. Jango desdenhou e manteve seu ritmo costumeiro de vida sedentária, alimentação inadequada, excesso no consumo de bebidas e vivendo em permanente estresse. No exílio uruguaio, também devido aos problemas com o coração, foi atendido pelo dr. Zerbini. Na França, onde esteve várias vezes, foi cuidar do coração e chegou a tentar uma consulta com o dr. Christian Barnard, na África do Sul, médico que dirigiu a equipe que fez o primeiro transplante de coração.
A transformação de Jango em um perigoso adversário do regime militar — tanto que o seu assassinato teria sido planejado pela Operação Condor — não passa de uma farsa. No exílio uruguaio, especialmente nos anos 1970, não tinha qualquer atuação política.
Tudo não passa de mais uma tentativa de mitificação, da hagiografia política sempre tão presente no Brasil. O figurino de democrata, reformista e comprometido com os deserdados foi novamente retirado do empoeirado armário. Agora pelos seus antigos adversários, os petistas. Mero oportunismo. É que a secretária dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, pretende ser candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul. E, como boa petista, não se importa de reescrever a história ao seu bel-prazer.
O cinquentenário dos acontecimentos de março/abril de 1964 é uma boa oportunidade para rever o governo Jango. O início dos anos 1960 esteve marcado pela agudização das mais variadas contradições. O esgotamento do ciclo econômico que alcançou seu auge na presidência JK era evidente. A grande migração tinha criado uma sociedade urbana e novas demandas que os governos não sabiam como atender. A tensão gerada pela Guerra Fria azedava qualquer conflito, por mais comezinho que fosse.
É nesta conjuntura que Jango tentou governar. E foi um desastre. Raciocinava sempre imaginando algum tipo de ação que significasse o abandono da política, do convencimento do adversário. Era tributário de uma tradição golpista, típica da política brasileira da época.
Nunca fez questão de esconder seu absoluto desinteresse pelas questões mais complexas da administração pública, distantes da politicagem do dia a dia. Celso Furtado, nas suas memórias (“A fantasia desorganizada”), relatou que entregou o Plano Trienal — que buscava planejar a economia nos anos 1963-1965 — ao presidente depois de exaustivas semanas de trabalho. Jango mal passou os olhos pela primeira página. Em entrevista à revista “Playboy”, em abril de 1999, Furtado foi direto: Jango “era um primitivo, um pobre de caráter”.
No polo ideológico oposto, o embaixador Roberto Campos, também nas suas memórias (“A lanterna na popa”), contou que escreveu um documento de 30 páginas relatando os contenciosos do Brasil com os Estados Unidos, em 1962, quando da visita do presidente a Washington. San Tiago Dantas, ministro das Relações Exteriores, pediu ao embaixador que reduzisse ao máximo a extensão do texto, pois com aquele volume de páginas o presidente não leria. Obediente, o embaixador sintetizou os problemas em cinco páginas, que foram consideradas excessivas. Diminuiu para três páginas. Mesmo assim, segundo Campos, Jango não leu o documento.
As reformas de base, palavra de ordem repetida à exaustão naqueles tempos, nunca foram apresentadas no seu conjunto. A definição — ainda que vaga — apareceu somente na mensagem presidencial encaminhada ao Congresso Nacional quando do início do ano legislativo, a 15 de março de 1964. E lembrar que foram apresentadas como soluções de curto prazo — mesmo sendo mudanças estruturais — durante três anos…
Deixou um país dividido, uma economia em estado caótico e com as instituições desmoralizadas. E abriu caminho para duas décadas de arbítrio.
Marco Antonio Villa é historiador
segunda-feira, 22 de julho de 2013
57 - O Politicamante Correto
Pessoal, terminei de ler o livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia,
de Luiz Felipe
Pondé, no formato ebook pelo Kindle. Minha avaliação: duas estrelas
em cinco. Tenho a impressão que o livro foi escrito às pressas, aproveitando o
sucesso do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, do Leandro
Narloch (autor de outro livro do gênero, o Guia Politicamente Incorreto da
América Latina, também, aparentemente, elaborado de forma apressada). Mesmo
assim, Pondé fez uma boa síntese da questão do politicamente correto – o uso de uma linguagem e de uma postura
considerada correta pelas esquerdas porque, supostamente, evita a discriminação
de minorias. Seguem trechos do livro de Pondé abordando essa questão:
O politicamente
correto é um "ramo" do pensamento de esquerda americano. Se pensarmos
no contexto onde ele nasceu, veremos a ascensão social dos negros americanos no
final dos anos 60. Fenômeno semelhante aos gays a partir dos anos 80. A semelhança
apenas comprova a tese: assim como a ascensão social dos negros nos anos 60, a
ascensão social dos gays nos anos 80 gerou o que podemos chamar de mal-estar
com relação ao "mau" tratamento dado aos gays na vida social comum.
Pelo fato de ter
sido um fenômeno que entrou para a agenda da nova esquerda americana, a
necessidade de melhores maneiras no convívio com os negros acabou por se
transformar num "programa político de criação de uma nova consciência
social". A diferença entre a velha esquerda e a nova esquerda é que, para
a velha, a classe que salvaria o mundo seria o proletariado (os pobres),
enquanto, para a nova, é todo tipo de grupos de "excluídos":
mulheres, negros, gays, aborígenes, índios.
O politicamento
correto, assim, nesse momento, se caracterizará por ser um movimento que busca
moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social
desses grupos e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e
linguagem que indiquem uma recusa dessa inclusão. Daí foi um salto para virar ações afirmativas, isto é, leis e
políticas públicas que gerassem a realização do processo (cotas de negros, gays,
índios nas universidades e nas empresas, por exemplo). Associado a isso, a universidade começou a produzir (sendo
a universidade sempre de esquerda) teorias sobre como a ideologia de ricos,
brancos, homens heterossexuais, ocidentais, cristãos criaram mentiras para colocar
as vítimas (os grupos excluídos citados acima) como sendo menos inteligentes,
capazes, honestos etc. O próximo passo foi a criação de departamentos nas
universidades dedicados à crítica da ideologia dos "poderosos".
O problema com o
politicamente correto é que ele acabou por criar uma agenda de mentiras
intelectuais (filosóficas, históricas, psicológicas, antropológicas etc) a
serviço do "bem", gerando censura e perseguições nas universidades e
na mídia para aqueles que ousam pôr em dúvida suas mentiras "do bem".
Movidos pela
ideia rousseauniana de que o mais fraco politicamente é por definição melhor
moralmente, o exército do politicamente correto se transformou numa grande
horda de violência na esfera intelectual nas últimas décadas, criando uma
verdadeira "cosmologia" politicamente correta a serviço da
transformação do mundo no mundo que eles têm na cabeça, muitas vezes
inviabilizando qualquer possibilidade de pensar diferente.
PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia.
São Paulo: Leya, 2012. Edição eletrônica, posição 132-161
domingo, 21 de julho de 2013
56 - As Jornadas de Junho (parte X)
Pessoal, segue um texto do sociólogo americano Immanuel Wallerstein sobre as manifestações que há alguns anos
ocorrem no mundo e mais recentemente no Brasil.
LEVANTES AQUI, ALI E
EM TODA PARTE
Immanuel
Wallerstein descreve cinco traços comuns aos movimentos políticos que tomam as
ruas do mundo. Segundo ele, estamos no meio de uma transição estrutural: de uma
economia mundial capitalista que está se esgotando para um novo tipo de
sistema. Mas ele pode ser melhor ou pior. Essa seria a batalha real.
O levante, agora persistente, na Turquia foi seguido
por uma revolta ainda maior no Brasil, que por sua vez foi acompanhada por
manifestações menos noticiadas, mas não menos reais, na Bulgária. Obviamente,
esses protestos não foram os primeiros, e muito menos os últimos de uma série
realmente mundial de revoltas nos últimos anos. Há muitas maneiras de analisar
este fenômeno. Eu o vejo como um processo contínuo de algo que começou com a
revolução mundial de 1968.
É claro que todas as revoltas são particulares em seus detalhes e na correlação de forças interna em cada país. Mas existem certas similaridades que devem ser notadas, se quisermos dar sentido ao que está acontecendo e decidir o que todos nós, como indivíduos e como grupos, deveríamos fazer.
A primeira característica em comum é que todas as revoltas tendem a começar muito pequenas — um punhado de pessoas corajosas manifestando-se sobre algo. E então, se elas “pegam”, coisa que é muito imprevisível, tornam-se maciças. De repente, não apenas o governo está sob ataque, mas, em alguma extensão, o Estado enquanto tal. Esses levantes reúnem tanto aqueles que querem a substituição do governo por outro melhor quanto os que questionam a própria legitimidade do Estado. Ambos grupos invocam o tema da democracia e dos direitos humanos, embora sejam variadas as definições que dão a esses dois termos. No conjunto, o tom dessas manifestações começa do lado esquerdo do espectro político.
O governo no poder reage, obviamente. Ou ele tenta reprimir as revoltas; ou tenta abrandá-las com algumas concessões; ou faz ambas as coisas. A repressão normalmente funciona, mas algumas vezes é contraproducente para o governo no poder, trazendo ainda mais pessoas às ruas. Concessões geralmente funcionam, mas algumas vezes podem ser ruins para o governo, levando as pessoas a ampliar suas demandas. De modo geral, os governos recorrem à repressão com mais frequência que às concessões. E, também grosso modo, a repressão tende a funcionar em um relativo curto prazo.
A segunda característica comum dessas revoltas é que nenhuma delas continua na velocidade máxima por muito tempo. Muitos manifestantes dão-se por vencidos após medidas repressivas. Ou são de alguma maneira cooptados pelo governo. Ou ficam cansados por causa do enorme esforço que as manifestações frequentes requerem. Essa diminuição da intensidade dos protestos é absolutamente normal. Ela não indica uma derrota.
Esse é o terceiro fator em comum, nos levantes. Embora terminem, deixam um legado. Mudam algo na política de seus países, e quase sempre para melhor. Forçam a entrada de alguma questão principal — por exemplo, as desigualdades — na agenda pública. Ou fazem crescer o senso de dignidade entre os extratos inferiores da população. Ou ampliam o ceticismo diante da retórica com a qual os governos tendem a encobrir suas políticas.
A quarta característica em comum é que, em cada onda de protestos, muitos que se unem ao movimento (especialmente os mais tardios) não chegam para reforçar os objetivos iniciais, mas para pervertê-los — ou para tentar conduzir ao poder político grupos de direita que são distintos daqueles que estão atualmente no poder, mas de maneira alguma mais democráticos ou preocupados com os direitos humanos.
O quinto traço em comum é que todos eles acabam envolvidos no jogo geopolítico. Governos poderosos, de fora do país nos quais os tumultos estão ocorrendo, trabalham intensamente (embora nem sempre com sucesso), para ajudar grupos aliados a seus interesses a alcançar o poder. Isso acontece tão frequentemente que uma das questões imediatas sobre cada movimento específico é sempre — ou deveria ser — saber quais suas consequências, em termos do sistema mundial como um todo. Isso é muito difícil, já que os desdobramentos geopolíticos potenciais podem levar alguns a desejar rumos opostos às intenções antiautoritárias originais do movimento.
Finalmente, devemos lembrar a respeito deste tema, e de tudo que está acontecendo agora, que estamos no meio de uma transição estrutural: de uma economia mundial capitalista que está se esgotando para um novo tipo de sistema. Mas ele pode ser melhor ou pior. Essa é a batalha real dos próximos vinte a quarenta anos. E a posição a assumir aqui, ali e em qualquer lugar deve ser decidida em função desta grande batalha política mundial.
É claro que todas as revoltas são particulares em seus detalhes e na correlação de forças interna em cada país. Mas existem certas similaridades que devem ser notadas, se quisermos dar sentido ao que está acontecendo e decidir o que todos nós, como indivíduos e como grupos, deveríamos fazer.
A primeira característica em comum é que todas as revoltas tendem a começar muito pequenas — um punhado de pessoas corajosas manifestando-se sobre algo. E então, se elas “pegam”, coisa que é muito imprevisível, tornam-se maciças. De repente, não apenas o governo está sob ataque, mas, em alguma extensão, o Estado enquanto tal. Esses levantes reúnem tanto aqueles que querem a substituição do governo por outro melhor quanto os que questionam a própria legitimidade do Estado. Ambos grupos invocam o tema da democracia e dos direitos humanos, embora sejam variadas as definições que dão a esses dois termos. No conjunto, o tom dessas manifestações começa do lado esquerdo do espectro político.
O governo no poder reage, obviamente. Ou ele tenta reprimir as revoltas; ou tenta abrandá-las com algumas concessões; ou faz ambas as coisas. A repressão normalmente funciona, mas algumas vezes é contraproducente para o governo no poder, trazendo ainda mais pessoas às ruas. Concessões geralmente funcionam, mas algumas vezes podem ser ruins para o governo, levando as pessoas a ampliar suas demandas. De modo geral, os governos recorrem à repressão com mais frequência que às concessões. E, também grosso modo, a repressão tende a funcionar em um relativo curto prazo.
A segunda característica comum dessas revoltas é que nenhuma delas continua na velocidade máxima por muito tempo. Muitos manifestantes dão-se por vencidos após medidas repressivas. Ou são de alguma maneira cooptados pelo governo. Ou ficam cansados por causa do enorme esforço que as manifestações frequentes requerem. Essa diminuição da intensidade dos protestos é absolutamente normal. Ela não indica uma derrota.
Esse é o terceiro fator em comum, nos levantes. Embora terminem, deixam um legado. Mudam algo na política de seus países, e quase sempre para melhor. Forçam a entrada de alguma questão principal — por exemplo, as desigualdades — na agenda pública. Ou fazem crescer o senso de dignidade entre os extratos inferiores da população. Ou ampliam o ceticismo diante da retórica com a qual os governos tendem a encobrir suas políticas.
A quarta característica em comum é que, em cada onda de protestos, muitos que se unem ao movimento (especialmente os mais tardios) não chegam para reforçar os objetivos iniciais, mas para pervertê-los — ou para tentar conduzir ao poder político grupos de direita que são distintos daqueles que estão atualmente no poder, mas de maneira alguma mais democráticos ou preocupados com os direitos humanos.
O quinto traço em comum é que todos eles acabam envolvidos no jogo geopolítico. Governos poderosos, de fora do país nos quais os tumultos estão ocorrendo, trabalham intensamente (embora nem sempre com sucesso), para ajudar grupos aliados a seus interesses a alcançar o poder. Isso acontece tão frequentemente que uma das questões imediatas sobre cada movimento específico é sempre — ou deveria ser — saber quais suas consequências, em termos do sistema mundial como um todo. Isso é muito difícil, já que os desdobramentos geopolíticos potenciais podem levar alguns a desejar rumos opostos às intenções antiautoritárias originais do movimento.
Finalmente, devemos lembrar a respeito deste tema, e de tudo que está acontecendo agora, que estamos no meio de uma transição estrutural: de uma economia mundial capitalista que está se esgotando para um novo tipo de sistema. Mas ele pode ser melhor ou pior. Essa é a batalha real dos próximos vinte a quarenta anos. E a posição a assumir aqui, ali e em qualquer lugar deve ser decidida em função desta grande batalha política mundial.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22380
domingo, 14 de julho de 2013
55 - As Jornadas de Junho (parte IX)
Pessoal ,
segue um texto do jornalista Clovis Rossi, publicado na Folha de S. Paulo (14 de julho), sobre as manifestações de junho.
Revolucionários ou burgueses?
Dois
acadêmicos estrangeiros, de posições contrapostas, chegam a conclusões
igualmente contrapostas --mas, curiosamente, ambas verossímeis-- a propósito
dos protestos no Brasil (e no mundo). O que não significa que sejam
verdadeiras, já que paira um imenso ponto de interrogação sobre as
manifestações.
Refiro-me
a artigos do esloveno Slavoj Zizek,
popstar da filosofia, para a "London Review of Books", e do cientista
político Francis Fukuyama, famoso
por ter decretado "o fim da história" com o triunfo definitivo do
capitalismo e da democracia liberal, este para o "Wall Street
Journal".
Para Zizek, os protestos são
anticapitalistas. "São todos reações a facetas diferentes da globalização
capitalista. A tendência geral do capitalismo global de hoje é no sentido de um
expansão ainda maior do império do mercado, combinada com o progressivo
fechamento do espaço público, a redução dos serviços (saúde, educação, cultura)
e uma gestão sempre mais autoritária do poder político", escreve.
Não é
difícil, de fato, ler os protestos no Brasil com essa lente. Pediram melhores
serviços públicos, entre eles os de saúde e educação, e uma reforma política
que desse aos mortais comuns um papel de maior protagonismo ante um poder
político fechado em si mesmo.
Resta
saber se são protestos contra o capitalismo como sistema, como crê o esloveno,
ou contra abusos que podem ser remediados sem jogar o sistema em si no lixo.
De todo
modo, é igualmente aceitável a conclusão de Zizek de que as manifestações são
uma "tomada de consciência de que a forma atual da democracia
representativa não é suficiente para combater os excessos do capitalismo e,
portanto, a democracia deve ser reinventada".
Não
deixaria de ser uma revolução.
Fukuyama não
vê revolução, mas "fermentos":
"O
elemento em comum nas recentes desordens na Turquia e no Brasil, como também na
Primavera Árabe de 2011 e nos contínuos protestos na China, é a ascensão de uma
nova classe média global. Onde quer que se tenha afirmado, essa classe média
provocou fermentos políticos, mas quase nunca tem sido capaz de determinar por
si só mudanças duradouras".
O
cientista político duvida que seja diferente agora.
Ao
contrário de Zizek, Fukuyama não vê anticapitalismo, mas o seu oposto no perfil
dos manifestantes:
"Grande
número de estudos conduzidos em vários países, entre os quais algumas pesquisas
do Centro Pew e dados da Pesquisa Mundial sobre Valores da Universidade de
Michigan, demonstram que pessoas com nível de instrução mais alto atribuem
maior valor à democracia, à liberdade individual e à tolerância com estilos de
vida diferentes."
Ou, posto
de outra forma, os manifestantes seriam "burgueses que reclamam não só
segurança para a própria família, mas também liberdade de escolha e mais
oportunidades".
No fundo,
é aquela velha história de que tudo depende da cor das lentes com as quais se
olha algum fenômeno.
Clovis Rossi em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2013/07/1310915-revolucionarios-ou-burgueses.shtml
sexta-feira, 12 de julho de 2013
54 - As Jornadas de Junho (Parte VIII)
Pessoal, seguem trechos de
um texto do jornalista Reinaldo Azevedo sobre
o Dia Nacional de Lutas – uma fracassada tentativa de paralização do país
organizada por vários sindicatos de trabalhadores e partidos políticos, que
reivindicaram, entre outras coisas, a redução da jornada de trabalho e o fim do
fator previdenciário (aplicado no cálculo para o recebimento da aposentadoria
integral, estimulando o trabalhador a adiá-la). Como outros analistas, ele faz
uma comparação entre a manifestação de ontem (dia 11 de julho) e os protestos
de junho. Destaquei em negrito as partes que considerei mais interessantes.
Micou de maneira retumbante
o tal Dia Nacional de Lutas. A CUT, a Força Sindical, outras centrais e os
partidos políticos de esquerda foram malsucedidos na tentativa de pegar carona
da onda de protestos que sacudiu o país. Houve, sim, muita atrapalhação nas
estradas, ocupação em porto, escaramuças, dificuldades aqui e ali, mas nada nem
remotamente parecido com os protestos havidos no mês passado.
O que significa o micão
desta quinta, em contraste com aquele milhão e meio de dias atrás? Significa
que reivindicar o inexequível é bem mais gostoso, o que nos remete a um dos
lemas de Maio de 1968, na França: “Seja realista, peça o impossível”. O evento
também expõe uma das forças e, ao mesmo tempo, das maiores fragilidades da “onda
de protestos” no Brasil: a composição social de quem vai ou foi às ruas. O
primeiro passo para responder de forma eficiente à realidade é admiti-la: os pobres, com raras exceções, preferiram,
até agora, ficar em casa.
Lastimo é que a pobreza de
liderança política no Brasil se reflita também nos sindicatos e que estejamos
sem o fio que possa desatar o nó.
Cobrar redução da jornada e
fim do fator previdenciário, olhem que coisa!, parece apequenar o movimento e a
razão por que se vai às ruas; é, como diriam os adolescentes hoje em dia (de
maneira irritante), “tipo assim” coisa de pobre, de um pragmatismo incompatível
com o sonho e com as evocações românticas. Os
“sonháticos” querem um outro mundo possível… Não! Na verdade, pretendem um
outro mundo… impossível. Nele, não só os políticos não roubam como, a rigor,
não há políticos nem política.
Líderes que efetivamente representam grupos e com os
quais se podem fazer acordos mobilizam meia dúzia de gatos-pingados; não
líderes – e que, portanto, não lideram, mas alçados pela imprensa à
condição de estrelas da não representação – conseguem criar eventos que
reúnem alguns milhares.
Há quem se deixe cair de
encantos por um paradoxo cuja graça, havendo alguma, é não mais do que literária
– e literatura meio velha, da década de 60: a “juventude” que está nas ruas tem força, mas não sabe o que quer, e
os que sabem o que querem já não têm força. Mas onde está a virtude desse
troço? Se isso produzir algo, tenho minhas dúvidas, será, no máximo, um
impasse. Para o qual ninguém tem resposta.
Texto completo em http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/geracao-facebook-diz-nao-a-forca-sindical-a-cut-e-aos-partidos-politicos-e-dia-nacional-de-lutas-vira-um-grande-mico-falha-tentativa-dos-aparelhos-de-ganhar-as-r/
terça-feira, 9 de julho de 2013
53 - O Brasil espionado
Algumas observações sobre o caso da espionagem americana
no Brasil, revelada no jornal O Globo no dia 7 de julho:
Eliane Cantanhêde1
Todo o mundo bisbilhota todo o mundo e todos os países
(que podem, claro) espionam todos os países (que interessam, claro). A única
coisa que não pode(ria) é ser flagrado bisbilhotando e espionando. Aí, vira uma
confusão, com os espionados encenando indignação e os espiões fingindo enorme
constrangimento.
Jânio de Freitas2
Vamos
fingir que nos sentimos surpresos e indignados. Vamos à ONU com um protesto
contra a espionagem com que o governo dos Estados Unidos invadiu mensagens
eletrônicas no Brasil. Vamos cobrar do governo americano explicações sobre a
central de espionagem instalada em Brasília pelo combinado CIA-NSA. Faz parte
da boa educação cívica mostrar-se surpreso e indignado.
Reinaldo Azevedo3
Os EUA monitoram quem liga pra quem — que se saiba, nesse caso, não se
conhece o conteúdo — mundo afora, especialmente no Ocidente? Que bom!!! Alguém
tem de fazer isso. Antes eles do que a China; antes eles do que a Rússia; antes
eles do que alguma central do terror. Dia desses, assistindo a uma reportagem
de TV, a moça, com aquele ar indignado a que a ignorância sempre confere
convicção, observou que, a despeito de tanto monitoramento, o serviço secreto
americano não conseguiu impedir o atentado terrorista de Boston. É uma
raciocínio estúpido. A eficiência de um monitoramento não se mede pelos
atentados que ocorrem, mas por aqueles que não ocorrem. E parte do serviço de
segurança consiste justamente em omitir essas informações para não gerar pânico
e garantir a segurança de algumas operações. Mesmo assim, alguns casos
vieram a público. Já se impediu um facínora, por exemplo, que levava um dispositivo
explosivo no salto do sapato, de explodir um avião. Quantos ataques o
monitoramento já evitou no país que teve o 11 de Setembro e mundo afora?
Ninguém jamais saberá. As autoridades brasileiras estão tomadas de pruridos
nacionalistas; falam em violação da soberania nacional… É. Nada como um
escorregão dos grandes para que os pequenos fiquem cheios de razão. É claro que
há aí um exagero, e os EUA tentam se explicar. É evidente que o Brasil tem de fazer cobranças e tal,
mas é bem possível que o grande número se supostas ocorrências em nosso país se
deva ao fato de que essa é uma área de trânsito de dados.
1. http://www1.folha.uol.com.br/colunas/elianecantanhede/2013/07/1308351-indignacao-com-prazo-marcado.shtml
2. http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2013/07/1308284-espiados-e-indignados.shtml
3. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/prontofalei-se-ninguem-quer-entao-falo-caso-snowden-esta-sendo-superestimado-e-jornalista-que-denuncia-complo-exercita-teorias-conspiratorias-e-faz-quando-menos-juizos-delinqu/
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